Mesmo com oferta de testagem gratuita, muitas mulheres adiam testagem por medo, desinformação ou por experiências negativas em atendimentos anteriores.
No mês em que se comemora o Dia Mundial de Luta contra a AIDS, o foco se volta para uma preocupante disparidade no acesso ao diagnóstico: o porquê de as mulheres frequentemente chegarem mais tarde ao diagnóstico de HIV. No Brasil, dados epidemiológicos têm reiterado que, embora os homens ainda representem a maioria dos casos, as mulheres enfrentam barreiras específicas que postergam a identificação da infecção, impactando diretamente o início do tratamento e o prognóstico.
A despeito da ampla oferta de testagem gratuita no Sistema Único de Saúde (SUS), o medo, a desinformação e, principalmente, as experiências negativas em atendimentos anteriores contribuem para o adiamento da testagem. Para especialistas, a saúde íntima e o acolhimento oferecido nesse contexto podem ser a chave para romper esse ciclo de silêncio e atraso.
A fisioterapeuta pélvica e palestrante Flaviana Teixeira levanta uma discussão crucial sobre esse tema, argumentando que o cuidado integral e humanizado da saúde íntima pode ser uma porta para a quebra dessas barreiras de acesso aos serviços de saúde. Ela destaca que, por vezes, a abordagem nos serviços de saúde falha em ser acolhedora, afastando a mulher de uma rotina de cuidados preventivos. “É inaceitável que em pleno 2025, o estigma e a falta de acolhimento ainda sejam determinantes para que uma mulher adie um cuidado que pode salvar a sua vida e a de outros. Muitas pacientes relatam sentir vergonha ou serem julgadas ao buscar informações sobre saúde sexual, o que as afasta do serviço. Esse é um problema de saúde pública que precisa ser enfrentado com humanidade”, declara.
Ela que atua na reabilitação e educação da saúde pélvica feminina, argumenta que o ambiente de cuidado íntimo, por sua natureza sensível, pode e deve ser um espaço de confiança e informação. “A Fisioterapia Pélvica, por exemplo, lida diretamente com a intimidade e a sexualidade da mulher, em um contexto de escuta atenta e sem julgamentos. Quando construímos essa relação de confiança, naturalmente abrimos espaço para a conversa sobre saúde sexual integral, e a testagem de ISTs, incluindo o HIV, é parte fundamental disso,” explica a palestrante.
Para a especialista, a abordagem deve ir além do biológico, focando na autonomia da mulher sobre seu próprio corpo. “Não se trata apenas de oferecer o teste, mas de educar para a saúde sexual de forma empoderadora. É preciso desmistificar o HIV, mostrar que o diagnóstico precoce e o tratamento adequado permitem uma vida plena e saudável. Profissionais de saúde precisam ser treinados para serem agentes de acolhimento, e não de repressão”, enfatiza.
A mudança exige um esforço conjunto da sociedade e dos profissionais de saúde:
- Quebrar o ciclo do silêncio: a informação clara e acessível sobre a testagem e o tratamento do HIV (especialmente o conceito de I=I, Indetectável = Intransmissível) deve ser ampliada para combater o medo;
- Capacitação humanizada: investir na formação de profissionais de saúde para oferecer um atendimento livre de preconceitos, com foco no acolhimento e na escuta ativa;
- Integração do cuidado: profissionais de diversas áreas (ginecologia, fisioterapia pélvica, psicologia) devem trabalhar em conjunto para oferecer um cuidado integral que inclua a saúde sexual;
“Meu chamado, neste Dezembro, é para que possamos olhar para a saúde da mulher de forma mais ampla e gentil. O cuidado íntimo não é um nicho; é uma porta de entrada para a saúde integral. Precisamos garantir que nenhuma mulher se sinta sozinha ou amedrontada ao buscar o direito de saber sobre sua própria saúde,” finaliza.
Acompanhe o trabalho da Dra. Flaviana Teixeira nas redes sociais: @flavianateixeirafisio | flavianafisiopelvica.com.brFonte: Flaviana Teixeira — Fisioterapeuta Pélvica | Palestrante


